Siron-FrancoA NOITE REVELADA DE SIRON FRANCO
18/10/90 – 10/11/90

De noite – falamos com os nossos ancestrais – todos os gatos são pardos. Mas se é assim que a capa negra do outro lado do cotidiano realmente esconde e oculta, tal não ocorre na visada de Siron Franco, para quem, como esse conjunto de representações demonstra, a noite tem luzes e pode surgir revelando e distinguindo, deixando ver uma multidão de formas que apenas pressentimos.

Noite que certamente permite juntar todos os gatos, mas que nas mãos (e no olhar) do artista, aparece revestida de evocações e figuras que conjugam projeto intelectual com desejo, deixando que elasticamente se toquem e confundam em planos simultâneos e superimpostos. E porque se confundem, podem irônica, ilógica e noturnamente, distinguir-se. Assim, transcendemos o “ver” e, pelos olhos de Siron, finalmente enxergamos através e além do breu noturnal, os seres e os corpos que se juntam e separam, caras que se projetam como máscaras insensíveis e como rostos nostálgicos que amamos fugaz e desesperadamente. Figuras aladas que cavalgam a nossa imaginação como as altas estrelas e o olho da lua; flutuantes na nossa fantasia, fazendo com que o sonho mais puro e a expectativa repleta de paixão, recebam aquela paradoxal concretude que as fazem ainda mais leves e inefáveis.

Na noite revelada do artista, entramos pelo preto do inconsciente brasileiro para viajar deslumbrados pelos umbrais que iluminam a escuridão, deixando ver pelas frestas e fechaduras da mente nossos olhares metaforicamente feitos de faces e corpos. Desejos noturnos encarnados em cores de veludo e seda, frio e esperança. Nessa noite, distinguimos, vagalumes, um pretume do outro. Nessa noite, encontramos sob as estrelas azuis, aquele mágico estado deausência que engendra o parto dos espaços liminares que subvertem o universo humano e conduzem a passagens, paisagens e escadas por onde todos subimos – e descemos – com o sonho na ponta dos pés (coração na mão) e a fantasia no olhar luminosamente enfeitado pela penumbra de um corpo de mulher quase escondido.

Espaços que separam-juntando o sonho da realidade e a vida da morte: noite que apascentará calmamente o nosso desejo mais insano e a nossa paixão mais febril, dando-nos a paz daquele céu aveludado. Noite que, mediunizada por Siron Franco, fala de nós mesmos como um punhado maravilhoso de anjos, máscaras, ligações, desejos, saudade e estrelas.
Roberto DaMatta Notre Dame

Setembro de 1990

Capa do catálogo da exposição

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