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Cícero Dias (1907-2003), pintor pernambucano. O amálgama desses dois termos parece esboçar uma metodologia: analisar a pintura de Cícero Dias sob terreno visual limitado, analisar a filiação ou mesmo a não filiação entre sua pintura e sua região natal, Pernambuco. Mas nessa dialética artista/região se insinua outra: o homem/artista. De igual modo, leva a supor a existência de uma relação entre esse homem e seu país via a biografia, o enraizamento, o regionalismo, sem que seja por isso um dikat, um discurso fechado. Bem ao contrário. A escolha inicial dessa moldura de pertença aponta para a prática confessa da atividade pictórica em Dias ter um halo proustiano inegável. Isso significa ter uma manifestação energética que supera a conceitualização e abriga a sobrenaturalidade, transformando as experiências do cotidiano em algo revelador da plataforma genética, a qual transversaliza as estações do processo poético.

 

O artista pernambucano atravessou o século e, em seu itinerário, há sua dupla ligação com o Modernismo Brasileiro e a Escola de Paris. Assim convergente, é surpreendente como sua obra se articula na fluidez e nas oscilações de um processo de criação variado e múltiplo. Elo a elo, da figuração imaginativa à abstração construída, do devaneio da memória ao puro rigor da invenção, seu campo imagético é construído com a linguagem singular que traz a marca do projeto ideológico do artista: “Partir do regional ao universal”. Estamos, pois, diante de uma questão que, por ser exposta de maneira recorrente pelo pintor, induz a não limitar a obra a este ou àquele período,

cabendo transpô-los e alcançar a imagem sem retirá-la do tecido expressivo ao qual está ligada por infinitos elos vitais.

 

Angela Grando

Apresentação

C°cero Dias - O Sonho - Litografia - 63x97cm - 1983_tratada_em baixaEm 20 de novembro de 1995, a Multiarte abrigou a primeira e única exposição de Cícero Dias realizada em Fortaleza. Segundo o artista me confidenciou, esta mostra seria um marco na sua vida, pois, além de Recife, Fortaleza seria outro local pioneiro no Nordeste a abrigar uma exibição mais abrangente de sua trajetória. Era um apaixonado por suas raízes nordestinas. Aquarelas dos anos 1920 e 1930 e pinturas das décadas de 1940 até 1980 compunham o grupo. Na noite de abertura, fui surpreendido com um simpático bilhete pessoal em papel de ateliê, concluindo “com votos de sucesso de Raymonde e Cícero”.

 

Decorridos 22 anos e por ocasião das comemorações dos 110 anos de nascimento do artista, a Multiarte apresenta uma nova exposição no mesmo formato da mostra que tanto encantou o artista. Desta vez em curadoria compartilhada com a pesquisadora e crítica de arte Angela Grando, que convoca, por meio de seu texto, uma visão multifocal e anacrônica para tratar a obra do pernambucano internacional Cícero Dias. Refletem-se aí algumas das questões que foram desenvolvidas em sua tese de doutorado, Cícero Dias: figuration imaginative et abstraction construite [1928-1958], defendida em 2002, na Université de Paris I – Sorbonne. A análise dessa autora, ao revisar a trajetória da obra e do artista, desvela as origens constitutivas do modo Dias de criar. Esse estilo não deixa de estar associado à “radicalidade da imaginação, à fabulação visual e à visão construtiva” que emergem da associação de dois espaços – interno e externo – do artista e do mundo. Não por acaso, na escrita dessa redefinição e pelo conjunto de referências teóricas e críticas em que se desdobra o ensaio, é reativado o legado permanente de Cícero Dias para a construção de um imaginário brasileiro.

 

As obras que compõem esta exposição, a maioria inéditas, são dez aquarelas dos anos 1920 e 1930, um desenho da década de 1930, dezenove pinturas dos anos 1930 a 1980 e dez litografias que constituem a Suíte Pernambucana, parte de um conjunto de 25 gravuras editadas em 1983, a partir de suas aquarelas de 1920. A impressão das litografias, feitas ao longo de um ano, ficou a cargo do Atelier Pierre Badey, em Paris, e todas as etapas de produção foram cuidadosamente supervisionadas pelo artista. Após a conclusão da impressão, as matrizes foram destruídas.

 

Das obras, destaco o olhar poético e narrativo da pintura que ilustra a capa deste catálogo. Em uma sequência de imagens, exibe um jovem pintor deixando a cena artística do Rio de Janeiro, representada pelos arcos da Lapa, próximo à rua Aprazível, em Santa Teresa, cenário onde o artista produziu seus trabalhos emblemáticos, como Eu vi o mundo… ele começava no Recife. O painel de grandes dimensões causou polêmica pela sua ousadia. Assim, em um comentário atormentado, Mario de Andrade (1893-1945), em carta para Tarsila do Amaral (1886-1973), descreveu a coragem de Cícero Dias nas cenas do “quadro que faz tremer os muros”. Em seguida, contou sobre uma das suas inúmeras musas na bicicleta, elemento recorrente na sua pintura, e um navio com a bandeira do Brasil partindo com o artista em traje social, sentado à mesa com uma mulher nua, rumo ao desconhecido.

 

Cícero Dias viveu intensamente a cena artística no Rio de Janeiro. Da sua primeira exposição em 1928, até sua ida para Paris em 1937, integrou-se no início dos movimentos modernistas, foi amigo de artistas, escritores e intelectuais, participou do Movimento Antropofágico lançado pelo Manifesto de Oswald de Andrade (1890-1954), expôs em Nova York e fez parte do Salão Revolucionário de 1931 – um marco no modernismo brasileiro, organizado por Lúcio Costa (1902-1998). Retira-se para Recife, onde monta ateliê e continua a trabalhar intensamente, e segue participando da vida intelectual com seu grande amigo Gilberto Freyre (1900-1987). Em 1937, vai para Paris, onde o aguardam o pintor Di Cavalcanti (1897-1976), sua mulher Noêmia Mourão (1912-1992) e o escritor Paulo Prado (1869-1943).

 

A longa experiência do pintor na Europa foi das mais intensas, tanto no plano cultural, convivendo com artistas modernos exponenciais do século XX e participando de movimentos e exposições notáveis, quanto no plano das aventuras de um homem corajoso e amante da liberdade, durante os anos sombrios da Segunda Guerra Mundial. A partir daí, sua arte tem mantido as encantadoras espontaneidade e originalidade, com uma assumida poética visual que, em determinado momento, enfrentou os desafios do abstracionismo, e deles extraiu a ambição de horizontes cada vez mais amplos.

Max Perlingeiro

Espaço espositivo

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Links Relacionados

O Povo online

Galeria Multiarte apresenta exposição com obras de Cícero Dias

IMGM3915Cícero Dias é “um dos mais importantes pintores modernistas brasileiros”. É assim que o artista pernambucano, nascido em 1907 na pequena cidade de Escada, é definido pelo galerista Max Perlingeiro. Parte do trabalho do modernista poderá ser vista, a partir da próxima quinta-feira, 30, na exposição Cícero Dias (1907-2003), na galeria Multiarte. Leia mais.

Caderno 3 - Diário do Nordeste

De volta a Cícero

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Rastro luminoso para as artes visuais brasileira em sua totalidade – abrangendo definições e remodelações de conceitos que consolidam o crescimento da imagem nacional além-fronteiras – , a Semana de Arte Moderna de 1922 foi responsável por catapultar muitos de nossos artistas ainda referenciais. Leia mais.

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Reencontro com a obra de Cícero Dias, 22 anos depois

2803va0320Foi em 20 de novembro de 1995 que a Galeria Multiarte recebeu, pela primeira vez, uma exposição de Cícero Dias em Fortaleza. “Foi a primeira exposição de Cícero numa capital nordestina, tirando Recife. Eu me lembro do grande entusiasmo dele na época, ele acolheu a exposição com muito carinho”, rememora Max Perlingeiro, curador da galeria. Leia mais.

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A Multiarte iniciou as suas atividades em novembro de 1987 com a missão de apresentar para o público de Fortaleza o que havia de importante no cenário artístico nacional. Realizamos ao longo destes trinta anos,45 exposições sempre acompanhadas de um catálogo ilustrado, o que hoje constitui uma fonte bibliográfica importante. Além das exposições,promoveupalestras por grandes críticos e historiadores,com a presença de artistas e ainda, ciclos de conferências. Leia mais.

Catálogo Virtual

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“Há sempre em alguma parte no Cícero Dias, um excesso de entropia tropical”