Antonio-DiasNesta exposição, que tem o papel como grande protagonista, a intenção foi mostrar o processo criativo de Antonio Dias, uma história de vida do artista.

 

Para tanto, está dividida em dois segmentos:

O primeiro – um percurso que vai dos anos 1950 ao ano 2000 -, reúne 64 obras produzidas nas mais variadas técnicas: gravuras, desenhos, monotipias e pinturas.

– Gravuras e desenhos dos anos 1950, do período em que o artista era aluno do mestre Oswaldo Goeldi (1895-1961), no Rio de Janeiro.

– Pinturas e desenhos dos anos 1960, período em que se afirma como artista. Participa da histórica exposição Opinião 65, um marco da arte contemporânea no Brasil; expõe em Paris e Milão.

– Pinturas e desenhos de 1970, destacando-se uma coleção de desenhos da famosa série: Illustration of art (Ilustração da arte) de 1973. E a exibição, em animação, do livro Some artists do, some not (1974) agora sob o título The meaning of production. Num livro de artista, um comentário um tanto irônico sobre pintura toma a forma de desenho: de um lado, a agulha que perfura a superfície do quadro, questionando a integridade física e metafísica do plano da representação; do outro, a própria costura reduplicando o formato quadrado…

– Pinturas e desenhos dos anos 1980. Aqui, cabe destacar a coleção de pinturas sobre papel artesanal nepalês. O artista viaja por cinco meses para o Nepal em busca de um papel artesanal para a produção do álbum Trama.

– Os anos 1990 e 2000 estão representados por uma pequena coleção de pinturas da série Autonomias, fonte de pesquisa para a sua produção atual.

O segundo segmento, apresenta nove pinturas dos anos 1960 e 1970.

A exibição de tais pinturas permitirá ao público conhecer obras que deram origem ao processo criativo de Antonio Dias, exibido na primeira parte desta exposição. A primeira delas é Pequena prostituta de 1962, seguida de seis pinturas sobre papel e duas pinturas de grandes dimensões.

Complementam a mostra o lançamento do livro Antonio Dias que traz uma análise profunda desta coleção por Sérgio Martins, conhecedor da obra do artista; cronologia de autoria de Ileana Pradilla, ilustrada por uma série de registros fotográficos de sua trajetória, alguns deles inéditos, no Rio de Janeiro, em Paris, em Nova York, em Colônia, em Veneza, em Milão e no Nepal e a exibição do documentário Território Liberdade de Roberto Cecato.

Espaço expositivo

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Cronologia

Ileana Pradilla Ceron

 

O desenho continua sendo o único modo de visualizar meus pensamentos. Não consigo admitir a ideia de começar a fazer algo sem saber o que ou para quê.1

 

1944-1962

Nasce em Campina Grande, Paraíba, em 1944. Na infância vive constantes mudanças de cidade e de família, tendo morado em Maceió, no sertão de Alagoas, em Recife e Campina Grande. Seu avô paterno lhe ensina os rudimentos do dese­nho, assim como a projetar e construir objetos em diferentes materiais, como madeira, lata e cartão. Ele me mostrou, sobretudo, como (…) realizar um objeto pensado e enfrentar os problemas dessa realização.2.

Aprende a ler nas histórias em qua­drinhos e desenha suas próprias tirinhas.

Em 1957 chega ao Rio de Janeiro com sua mãe. Estuda à noite e realiza diversos trabalhos, entre os quais o de desenhista de arquitetura e ilustrador. Um chefe de serviço do Ministério da Saúde, local onde atua como auxiliar de dese­nhista, percebe seu interesse pela gravura e o apresenta a Oswaldo Goeldi, que o acolhe como ouvinte em seu curso na Escola Nacional de Belas Artes. Apesar das naturais divergências entre o jovem aprendiz de 16 anos e o experiente grava­dor, Dias será marcado pela exigência de Goeldi em relação à qualidade do trabalho artístico.

As conversas informais no Museu de Arte Moderna, principalmente com Ivan Serpa e Aluísio Carvão, professores do Bloco Escola, também con­tribuem para a formação do artista. Ainda como freelance, trabalha como ilustrador para Senhor, revista que tem papel relevante na renovação do design gráfico brasileiro, e para a editora Tempo Brasileiro, como designer de capas.

Entre 1960 e 1962 realiza trabalhos em re­levo, pintura, guache, aquarela e gravura, muitos deles abstratos, em que predominam a geome­tria irregular das superfícies, as cores que reme­tem aos minerais do solo e a utilização de signos indígenas e de outras culturas ancestrais. O ar­tista se refere a esses trabalhos como Sequên­cias formais de fragmentos, a maioria em rele­vo, que narram uma história usando figuras sim­ples do meu próprio vocabulário: a terra, os ani­mais, plantas, misturados com a oligarquia, igre­ja e os militares. Tudo muito hierático, como num relevo egípcio.3

Algumas dessas obras estão presentes em sua primeira exposição individual, na Galeria Sobradinho, em Copacabana, em outubro de 1962. Na apresentação da mostra, o poeta e artista plás­tico Pedro Geraldo Escosteguy escreve: (…) quem quiser sentir em sua obra o delírio da improvi­sação, não encontra, pois Antonio Dias, atento às motivações do mundo exterior, delas extrai os conteúdos que se conjugam com sua sensibi­lidade.4

 

1963-1967

O trabalho de Dias sofre uma grande transforma­ção formal e de conteúdo em 1963. O artista ini­cia a construção de um imaginário singular que incorpora diversas referências, tais como os qua­drinhos, a sexualidade, a violência urbana e a re­pressão política.

A realização desses trabalhos parte, de acor­do com o artista, (…) de uma estrutura simples, onde pintava de maneira automática, uma imagem puxando a outra. Era uma livre associação do simbólico. Nesta operação não cancelava nada (…) Bem no início havia mesmo a procura de um certo “brutalismo”, uma estética do grafitti.5

Em dezembro de 1963 ganha o Primeiro Prê­mio de Desenho no XX Salão Paranaense de Be­las Artes, em Curitiba. Um ano depois, realiza sua segunda mostra individual na Galeria Rele­vo, no Rio de Janeiro, que conta com texto de apresentação do crítico francês Pierre Restany, um dos principais teóricos do Nouveau Réalis­me (Novo Realismo). De acordo com Restany, as obras de Dias são multifacetadas, sem frontei­ras precisas entre os campos de ação da reporta­gem exterior e da introspeção individual. Lá exis­te sexo, sangue, fatos diversos e muito fetichis­mo (…) toda a herança de nossa natureza urbana e de nossa civilização industrial. (…) 6

A partir de 1964 os trabalhos se afastam da chamada “pintura de cavalete”, pois adquirem for­matos irregulares, com telas estofadas e imagens que, ao transbordar da superfície, tornam-se obje­tos tridimensionais. Predominam nessas obras as cores preta e vermelha. A marca das pinceladas de­saparece e a fatura passa a ser impessoal, aproxi­mando-se dos trabalhos gráficos. As obras também ganham títulos que aludem, com certa ironia, à si­tuação política vivida no país após o golpe militar.

Em 1965, o trabalho de Dias passa a ser vis­to com regularidade em galerias e museus fran­ceses. Em janeiro, participa do XVI Salão da Jo­vem Pintura, no Museu de Arte Moderna de Paris. Em março, a colecionadora franco-brasilei­ra Ceres Franco, Jean Boghici e Pierre Restany organizam a primeira individual do artista em Paris, na galeria Florence Houston-Brown, que recebe excelente acolhida do meio local. Entre setembro e novembro participa da IV Bienal de Paris, evento em que representa o Brasil, ao lado de outros artistas como Roberto Magalhães, To­moshigue Kusuno e José Roberto Aguilar. Rece­be o prêmio de pintura nesse certame, que con­siste numa bolsa do governo francês e inclui uma estadia de seis meses em Paris.

Em agosto do mesmo ano participa, no Rio de Janeiro, de Opinião 65, exposição organizada no Museu de Arte Moderna, também por Ceres Franco e Boghici, reunindo jovens artistas brasi­leiros e europeus em torno da Nova Figuração. A exposição toma emprestado o nome do show Opinião, uma das primeiras reações artísticas ao golpe militar de 31 de março de 1964.

Em abril de 1966, ao lado de Pedro Escoste­guy, Carlos Vergara, Roberto Magalhães e Rubens Gerchman participa da exposição inaugural da Galeria G4, no Rio de Janeiro, do fotógrafo David Zingg e do arquiteto Sergio Bernardes. Além das obras, o evento também apresenta ousados happe­nings dos expositores, com grande repercussão no meio cultural local. Impactado com a mostra, o cineasta Antonio Carlos Fontoura realiza o cur­ta-metragem Ver e Ouvir, com Dias, Magalhães e Gerchman. Na parte dedicada ao trabalho de Antonio, intitulada Preparação para o contra-ataque, o artista lê o depoimento que preparou para a exposição: Então só pinto para dizer alguma coi­sa. O ato de pintar me chateia: se pudesse man­dava alguém pintar por mim.7

No final de 1966, viaja para a capital francesa para usufruir do prêmio recebido na Bienal de Pa­ris. Ao terminar o período da bolsa, resolve não retornar ao Brasil.

Com ajuda de Ceres Franco e do artista bel­ga Corneille se integra rapidamente à cena cul­tural parisiense. Seus primeiros trabalhos na cida­de ainda remetem às obras realizadas no Brasil, mas possuem uma construção mais equilibrada, que os distancia do processo de associação au­tomática das obras anteriores. Em pouco tempo, as obras com imagens fragmentadas e transbor­dantes, mas ainda presas à estrutura do quadro, desaparecem, dando lugar a objetos negros, que em nada remetem ao mundo exterior, como Coletivo, Solitário e Opressor/Oprimido.

Esses trabalhos silenciosos o distanciam do grupo conhecido como Figuração Narrativa. Nesse mesmo período, o contato com outras concep­ções artísticas contemporâneas como os textos do artista norte-americano Robert Smithson, re­lacionando conceitos da física à arte e à cultura,contribui para que Antonio repense os rumos de seu trabalho.

 

 

1968-1976

Após vivenciar as revoltas estudantis de maio de 1968 em Paris, viaja para Londres. Ao retornar à capital francesa não consegue a renovação de sua carte de séjour, por ter sido visto numa mani­festação de artistas em frente ao Museu de Arte Moderna. Por indicação do colecionador Marcelo Rumma, que vê aproximações entre seus traba­lhos recentes e o de jovens artistas italianos cuja produção é reunida sob o rótulo de Arte Povera (Arte Pobre), segue para Itália.

Em junho de 1968 chega a Veneza e se depa­ra com os violentos protestos de artistas, críticos e estudantes contra a organização da XXXIV Bienal. Passa por Salerno, cidade onde mora Rumma, an­tes de seguir para Milão, uma das capitais econô­micas europeias, para onde confluem artistas e in­telectuais de diversas nacionalidades e tendências.

Em agosto, já instalado em ateliê empresta­do pelo artista Lucio Del Pezzo, passa a conviver com integrantes da arte contemporânea italiana como Enrico Castellani, Alighiero Boetti, Giulio Paolini e Luciano Fabro e com o crítico Tomma­so Trini, entre outros, ao lado dos quais encon­tra um contexto produtivo e estimulante, próxi­mo ao experimentalismo vivido no Brasil antes de sua partida, em 1966.

O trabalho de Antonio também é bem rece­bido pelo galerista Giorgio Marconi, fundador do Studio Marconi. Contratado pela galeria, Dias re­solve fixar-se definitivamente em Milão, onde até hoje mantém uma de suas residências.

Nesse período, desenvolve o trabalho inicia­do no final de sua estada em Paris. Produz pintu­ras de grandes campos reticulados e esquemáti­cos, em geral nas cores negra ou branca, com pa­lavras ou frases em letras tipográficas, que discu­tem o espaço da arte enquanto um campo concei­tual. Esses trabalhos conjugam a precisão formal e as ideias de serialidade e repetição, característi­cas do minimalismo, e a compreensão da arte en­quanto atividade intelectual e geradora de ques­tionamentos sobre ela mesma, da arte conceitual.

Em 1969 realiza sua primeira individual ita­liana no Studio Marconi, que conta com o texto Os enigmas de Antonio Dias, de Tommaso Trini. Inte­grado à cena artística italiana, é convidado a par­ticipar de exposições internacionais que discu­tem a produção contemporânea recente, como Contemporary art. Dialogue between the east and the west, no National Museum of Modern Art, em Tóquio. Nessa mostra apresenta Do it yourself: freedom territory, sua primeira cons­trução ambiental.

Do it yourself é o primeiro dos diagramas do álbum Project book – ten plans for open projects que o artista executa espacialmente. Concebido no ano anterior, o álbum introduz a ideia de proje­to na obra de Dias. Para o artista: A ideia central era fazer um trabalho legível, ser uma produção anônima, para que qualquer um pudesse repro­duzi-lo; realizá-lo e encontrar outro sentido poéti­co, mantendo-se dentro de uma estrutura formal muito simples. É assim que Do it yourself: free­dom territory foi concebido.8

Hélio Oiticica, desde Londres, escreve o tex­to que acompanha o álbum, em que relaciona esses projetos com o conceito de “probjeto”, cunhado por Rogerio Duarte. Em 1977, o artista editará esse álbum sob o título de Trama.

Em 1971 é o único artista latino-americano con­vidado pelo curador Edward Fry a participar da sex­ta e última edição da exposição Guggenheim Inter­national, em Nova York, panorama das novas ten­dências, organizada pelo museu homônimo. Nes­se ano, a mostra é dedicada à arte conceitual e ao pós-minimalismo. Entre os 21 participantes, além de Dias, estão Carl Andre, Walter De Maria, Donald Judd, Joseph Kosuth, Sol LeWitt, Mario Merz, Jiro Takamatsu, Robert Ryman e Richard Serra.

 

Ainda em 1971, surgem os primeiros tra­balhos de The illustration of art (A ilustração da arte), uma de suas séries mais conhecidas, que se desdobra até 1978. Acompanhando a atitu­de experimental de formatos e de linguagens, característica da arte desse período, Dias utiliza mídias variadas como película, fotografia, pintu­ra, impressão, papel artesanal e instalações para realizar trabalhos que tomam o sistema de arte (sua produção, circulação e consumo) como te­mática, ou provocação.

Em 1972 recebe a bolsa John Simon Gugge­nheim e viaja para Nova York, onde permanece até meados de 1973. Embora o artista afirme não ter estabelecido forte identificação com a cidade, sua estadia mostra-se bastante fecunda, resultando na concepção de diversos projetos experimentais em linguagens variadas, principalmente audiovisuais. Neste período Dias convive com outros brasileiros e latino-americanos na cidade como Hélio Oiticica, Rubens Gerchman, Luiz Camnitzer e Liliana Porter.

O trabalho com mídias audiovisuais, entre­tanto, já havia começado em Milão, em 1971, com a realização dos primeiros filmes em forma­to Super-8 mm, dentro da série The illustration of art. Data do mesmo período a gravação do disco Record: the space between, um trabalho concei­tual sobre o tempo e o espaço, que é apresen­tado na mostra Record as art work, curada por Germano Celant no Royal College of Art, em Lon­dres em 1973.

Nesse ano, o artista retorna ao Brasil pela primeira vez, desde sua partida em 1966 e en­contra um ambiente cultural totalmente distinto daquele que havia deixado. Os anos de ditadura militar acabaram por sufocar boa parte do espíri­to libertário dos anos 1960, deixando como he­rança um “vazio cultural”, rótulo que muitos utili­zam para definir esse momento.

Em individual na galeria Ralph Camargo, em São Paulo, e na Bolsa de Arte, no Rio de Janei­ro, mostra pinturas realizadas nos primeiros anos em Milão, como Prisoner’s project e Environment for the prisoner. O cartaz da exposição reproduz a poesia constelário para antonio dias, de Harol­do de Campos. Nesse ano participa também da Bienal de Paris, em sua oitava edição, desta vez integrando a representação italiana a convite do crítico Achille Bonito Oliva.

Em 1974 apresenta exposição individual na Sala Monumental do Museu de Arte Moderna do Rio. Muito diversas entre si, e da linguagem da maioria de seus trabalhos, as obras Poeta/Por­nógrafo (1973), Tradução – Marcação para intér­pretes perigosos (1972), O arquipélago e as ilhas (1972) e Conversation piece (1973), integrantes da mostra, são instalações e projeções audiovisu­ais que têm sua origem em anotações de sonhos, prática regular do artista naquela época.

Em 1975 realiza nova instalação no Studentski Kulturni Centar, em Belgrado, antiga capital da Re­pública Socialista da Iugoslávia, atual capital da Sérvia. Na ocasião, o artista cobre um grande muro com cetim vermelho e desloca o pequeno quadra­do superior para a parede contígua, deixando na ex­tensa superfície um quadrado branco, ou faltante. Nesse trabalho, o vermelho aparece pela primei­ra vez na obra de Dias mais do que enquanto cor, como um campo, dotado de uma extensão e in­tensidade que independe do tamanho ocupado.

No ano seguinte, o artista cria uma “bandei­ra” formada por um tecido vermelho, sem o can­to superior, e uma haste fina de bambu chinês, fundido em bronze. Colocado sobre o telhado de uma comuna em Milão, em frente ao seu ateliê, o vermelho aqui surge associado à ideia de terri­tório e ganha o nome de O país inventado (Dias-de-Deus-Dará). Em 1977, essa mesma obra é fo­tografada pelo artista no seu campo de trabalho em Barabishi, no Nepal.

Embora o título O país inventado tivesse sur­gido em 1971, nomeando um tríptico de telas ne­gras com as palavras “Birth”, “Life”, “Death”, no centro de cada uma, é essa “bandeira“ onde o re­tângulo recortado e o espaço vermelho se identi­ficam, que dá origem a uma das marcas mais ca­racterísticas no trabalho de Dias.

 

1977-1988

A busca por um papel artesanal para a edição do álbum Trama, criado originalmente em 1968, leva o artista, em 1977, a uma viagem de cinco meses ao Nepal. Essa experiência, que se tornará fundamen­tal na obra e na vida de Dias, resulta não apenas na publicação de Trama, nesse mesmo ano, mas na abertura para uma nova direção em seu trabalho.

A inexistência de uma produção de papel em grande escala obriga o artista a assumir a co­ordenação do processo de sua fabricação, levan­do-o a conviver estreitamente com famílias de di­ferentes etnias na fronteira com o Tibete. A expe­rimentação de processos e técnicas artesanais da fabricação e da coloração do papel resulta em obras cuja identidade se confunde com a fisica­lidade do próprio papel, algo completamente di­verso de suas obras anteriores.

Os trabalhos em papel nepalês são mostra­dos pela primeira vez na exposição Arte agora III – América Latina: Geometria sensível, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, em 1978. O grande incêndio ocorrido no Museu nesse perío­do, destrói a maioria dessas obras.

Nesse mesmo ano, retorna temporariamen­te ao Brasil para implantar o Núcleo de Arte Con­temporânea (NAC), projeto criado junto a Paulo Sergio Duarte para a Universidade Federal da Pa­raíba e a Funarte, em João Pessoa, que tem por objetivo incentivar e difundir a produção contem­porânea, nacional e internacional, no estado. No âmbito desse projeto, Antonio concebe e produz a exposição de livros de artistas Livre como Arte e publica o livro Política: ele não acha mais graça no público das próprias graças.

A partir de 1978, graças ao processo de anis­tia promovido pelo governo brasileiro, embora ainda sob o regime militar, muitos intelectuais e artistas, entre os quais Paulo Sergio Duarte e o próprio Dias, retornam ao país e se engajam no planejamento de programas de incentivo à refle­xão e à produção cultural, atividades massacra­das pela ditadura. Entre 1977 e meados da década de 1980 Dias se concentra, basicamente, na produção de trabalhos em papel nepalês. Apesar das eviden­tes diferenças estéticas com as obras realizadas em Milão, o artista estabelece um fio condutor entre os papéis e o trabalho anterior, produzindo novas obras ainda inseridas na série The illustration of art.

 

 

No começo dos anos 1980, a introdução de materiais como óxido de ferro, grafite e pigmen­tos metálicos nos trabalhos em papel, conferem às superfícies densidade, opacidade e peso. Sig­nos como ossos, falos, martelos e cifrões, que já povoaram suas obras na década de 1960, retor­nam e invadem as superfícies que, saturadas, se distanciam de qualquer ideia de lirismo e fragili­dade que ainda pudesse ser associada aos pri­meiros papéis do Nepal.

Sobre o reaparecimento dos signos em seu trabalho, Dias comenta: Esses signos são au­tomáticos, mas também conscientes ou popu­lares (…) No início eram signos (…) que faziam parte de nossa vida (…) atualmente os sinais são os mesmos porque não preciso “inventar” outros. Eles são sempre uma referência àque­le outro momento do trabalho (…) A repetição dos sinais só acentua a relação entre estes mo­mentos.9

Em 1981 retorna a Milão. Chega à cidade em plena voga da Transvanguardia, movimento ar­tístico conceituado pelo crítico italiano Achille Bonito Oliva em 1979, que defende o retorno à pintura figurativa, a arte como fonte de prazer e expressão da subjetividade individual. A críti­ca ao racionalismo excessivo da arte conceitual e do minimalismo, implícita nessa tendência, está igualmente presente em outros movimentos ar­tísticos contemporâneos que também celebram a volta à pintura, como o Neoexpressionismo, na Alemanha e a Bad painting, nos Estados Unidos.

A Alemanha torna-se, nesse momento, um importante centro de arte contemporânea. Além da produção pictórica de grande qualidade, com artistas como Georg Baselitz e Anselm Kiefer, o país atrai criadores de diversos cantos do planeta devido ao forte desenvolvimento de um contexto produtivo para a arte, com o surgimento de impor­tantes coleções públicas e privadas, de museus, galerias e instituições de ensino. O trabalho de Antonio Dias encontra boa receptividade na cena artística alemã e, desde o começo da década, sua atividade expositiva se volta para esse país.

Em 1984, a Städtische Galerie im Lenbach­haus, em Munique, organiza a primeira grande mostra do artista na Alemanha, sob o título The invented country/ Erfundenes land. Nesse ano participa ainda da exposição An International Sur­vey of Recent Painting and Sculpture que cele­bra a reabertura do MoMA em Nova York, após quatro anos de obras de expansão.

Em meados dos anos 1980, Dias começa a realização de grandes pinturas utilizando grafi­te, óxido de ferro e pigmentos metálicos, como ouro e cobre, já presentes em seu trabalho em papel nepalês, e introduz elementos como ro­dos, arames e ossos de borracha, acoplados às telas. As pinturas desse período, em sua maio­ria da cor do grafite, chamam a atenção para a materialidade e a textura das superfícies. Ao con­trário da pintura “matérica” em voga, a constru­ção dos trabalhos de Antonio continua sendo fru­to, não da livre expressão subjetiva, mas de um apurado cálculo, onde cada elemento é aprovei­tado levando em conta seu máximo rendimen­to. Os materiais, por exemplo, não são escolhas gratuitas ou apenas estéticas, desempenhando na obra um duplo papel, sendo matéria e cor ao mesmo tempo.

 

1988-2015

Em 1988 recebe bolsa da DAAD (Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico) para uma residência de um ano em Berlim. A Staatlische Kunsthale, na mesma cidade, realiza mostra de seus traba­lhos em papel, produzidos entre 1977 e 1987.

Em 1989, ano emblemático da derrubada do Muro de Berlim e da consequente unificação alemã, Antonio Dias fixa residência em Colônia, centro econômico e cultural europeu, sede de importantes coleções de arte, públicas e priva­das. Nesse mesmo ano, o Städtisches Museum Mülheim, na cidade de Mülheim an der Ruhr, organiza exposição com as novas pinturas do artista.

Permanecendo no universo da pintura, as obras no final da década de 1980 apresentam, entretanto, transformações significativas. Uma das mais evidentes é a adoção de dois ou três chassis, de formatos e cores independentes en­tre si, para a construção de uma única obra. Esse “todo” paradoxal, formado por partes desiguais, questiona a ideia de homogeneidade, unicidade e simetria, características usualmente associa¬das à ideia de obra de arte.

No início dos anos 1990, a incorporação da malaquita, minério de cor verde, a introdução de telas monocromáticas vermelhas, geralmente formando uma das partes dos trabalhos, e das manchas que parodiam um padrão de pele de onça aumentado, aportam nova visualidade aos trabalhos.

Ao longo da década, seu trabalho é objeto de diversas exposições antológicas. Em 1993 a Städtische Galerie im Lenbachhaus apresenta trabalhos realizados em 1970 e 1980. No ano seguinte, o Institut Mathildenhöhe em Darmstadt organiza Antonio Dias. Trabalhos/Arbeiten/Works 1967-1994, mostra panorâmica de cinquenta trabalhos, com curadoria de Klaus Wolbert. Em 1999, a Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, apresenta Antologia 1965-99, a mais abrangente ex¬posição de sua obra até o presente, com curadoria de Jorge Molder e Paulo Herkenhoff.

Ainda nos anos 1990, Dias desenvolve al¬gumas atividades didáticas, lecionando pintura, em 1992, na Internationale Sommerakademie für Bildende Kunst, em Salzsburgo, e, no ano se¬guinte, na Staatliche Akademie der Bildenden Künste, em Karlsruhe.    Em 1997 é professor vi¬sitante no programa de pós-graduação nos Ate¬liers Arnhem, na Holanda.

Em setembro de 2000, comemorando 40 anos de carreira do artista, é inaugurada a mos¬tra Antonio Dias. O país inventado no Museu de Arte Moderna da Bahia, primeira grande expo¬sição panorâmica do artista no Brasil. Até 2002, a mostra será apresentada na Casa Andra¬de Muricy, em Curitiba, no Museu de Arte Moderna de São Paulo, no Museu de Arte Moder¬na do Rio, no Museu Vale do Rio Doce, em Vila Velha, no Espaço Cultural Venâncio, em Brasília, no Centro Cultural Dragão do Mar, em Fortaleza e no Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães, no Recife. Os catálogos produzidos apresentam diversos ensaios críticos sobre a obra de Dias, assinados por Sonia Salzstein, Moacir dos Anjos, Ligia Canongia e Elisa Byignton.

 

Por toda a década de 2000, realiza a série de trabalhos denominada Autonomias. As obras dessa série podem ser vistas como edições ou montagens, no sentido cinematográfico (como o crítico Paulo Sergio Duarte define a operação construtiva desses trabalhos) de diversas su­perfícies independentes e por vezes conflitan­tes, com suportes desiguais, mas que formam um todo de grande força plástica. Para o crítico A contundência plástica, a força do elemento estri­tamente pictórico que reside nessa expansão e multiplicação do “quadro”, não é mais um “qua­dro”, aquele que seria, afinal de contas, a pintu­ra por excelência segundo a tradição. São vários em um só. E aspiram à totalidade.10

Em 2009, após vinte anos radicado em Co­lônia, Dias muda-se para o Rio de Janeiro, man­tendo ainda sua residência em Milão. Nesse ano, o Daros Museum em Zurique organiza Antonio Dias. Anywhere is my land, grande exposição do artista com obras das décadas de 1960 e 1970 pertencentes à Daros Latinamerica Collection e curadoria de Hans-Michael Herzog. A mostra é apresentada, no mesmo ano, na Pinacoteca do Estado de São Paulo. Ainda em 2010 participa, entre outras mostras, da 29a Bienal Internacio­nal de São Paulo, com O País inventado (1976) e apresenta, na Casa de Cultura Laura Alvim, no Rio de Janeiro, a individual Sem pudor, com cura­doria de Ligia Canongia. A exposição reúne traba­lhos inéditos em vídeo e fotografia digital a partir de originais em polaroid, que retomam a questão do erotismo, presente desde a década de 1960 na obra do artista.

As pinturas realizadas na última década evi­denciam um novo posicionamento de Dias em relação ao seu próprio trabalho. A introdução de cores como amarelo e púrpura, a contaminação das superfícies vermelhas pelo branco, assim como o uso despudorado do dourado, marcam o ingresso num território de cor até agora pouco explorado. Em suas palavras: Tenho experimen­tado muito. Tenho me dedicado, por exemplo, a explorar a cor, que nunca foi uma matéria minha. Algumas vezes não dá certo; em outras, fico feliz com o resultado11.

Em 2013, o aspecto experimental e o inti­mismo no trabalho do artista ganham destaque nas exposições Antonio Dias, Pinturas sobre car­tões, na Galeria Celma Albuquerque, em Belo Ho­rizonte, e Antonio Dias – aquarelas e colagens, na Múl.ti.plo Espaço de Arte, no Rio de Janeiro. Por ocasião da mostra em Minas Gerais é edita­do o texto Arquivo íntimo, de Elisa Byington. Para a exposição carioca, é publicado Para onde vai a libido, de Paulo Sergio Duarte.

Em 2014, as pinturas recentes são apresen­tadas na Galeria Nara Roesler, em São Paulo, e na exposição Antonio Dias – potência da Pintura, com curadoria de Paulo Sergio Duarte, na Funda­ção Iberê Camargo, em Porto Alegre. Além das montagens pictóricas, a última mostra também reúne alguns objetos, ou esculturas, que pare­cem desconectados da produção corrente do ar­tista, como Seu marido, Duas torres e Satélites, todos de 2002.

Ao lado de outras instalações e objetos que irrompem em certos momentos na trajetória de Dias, como KasaKosovoKasa (1996), esses tra­balhos independentes, por assim dizer, são uma espécie de comentário ou declaração do artis­ta sobre situações específicas, seja de natureza histórica, seja de cunho pessoal.

Longe de serem trabalhos panfletários, en­tretanto, essas obras reafirmam o sentido políti­co presente em boa parte do trabalho do artista e reforçam a íntima conexão existente entre a arte e a vida, na obra de Antonio Dias.

Em 2015, o artista participa de diversas mos­tras internacionais que propõem releituras sobre a arte produzida nas décadas de 1960 e 1970, como The world goes pop, na Tate Modern, em Londres; Pop International, no Walker Art Center, em Minneapolis e Transmissions: Art in Eastern Europe and Latin America, organizada pelo Mu­seum of Modern Art (MoMA), em Nova York. In­tegra, ainda de Au Rendez-Vous des Amis, na Fon­dazione Alberto Burri, em Città di Castello, evento comemorativo do centenário de nascimento do italiano Alberto Burri, que reúne, em exposição e seminários, artistas atuantes na Europa para dis­cutir temas centrais da arte contemporânea.

No Rio de Janeiro, toma parte da mostra Made in Brazil, na Casa Daros, primeira exposição no país do acervo de arte brasileira da Daros La­tinoAmerica Collection. Nesse mesmo espaço, lança Galáxias, projeto experimental concebido na década de 1970 com o poeta concretista Harol­do de Campos (1929-2003), realizado na forma de um estojo de fibra de vidro que contém, em cada exemplar, 32 objetos produzidos por Dias, agrupa­dos em dez caixas de madeira. Na Galeria Nara Roesler, na mesma cidade, expõe seus trabalhos em papel produzidos no Nepal a partir de 1977. O crítico anglo-brasileiro Michael Asbury assina o texto The rule of the game, publicado na ocasião.

Trabalhos do artista da década de 1960 par­ticipam das exposições comemorativas do cin­quentenário da mostra Opinião 65, no Museu de Arte Moderna e na Pinakotheke Cultural, tam­bém no Rio de Janeiro.

Em outubro, a galeria Multiarte, em Forta­leza, promove a mostra Antonio Dias, Desenhos 1960-2000, e lança catálogo com texto crítico Conta em aberto: O desenho antidisciplinar de Antonio Dias, de Sérgio B. Martins.

 

 

Notas

1 Antonio Dias. Entrevista a Lúcia Carneiro e Ileana Pradilla. Coleção Palavra do Artista. Rio de Janeiro: Lacerda Editores, 1999, p. 9-10

2 Ibid., p. 7

3 Antonio Dias. Depoimento por e-mail a Julie Belcove, junho de 2015.

4 Ferreira Gullar. Antonio Dias até hoje. Rio de Janeiro: Jornal do Brasil. 31 de outubro de 1962.

5 Antonio Dias. Entrevista a Lúcia Carneiro e Ileana Pradilla. Op. cit.,p. 13

6 Restany, Pierre. Da torre de marfim à torre de Babel, catálogo da mostra Antonio Dias, Gale­ria Relevo, Rio de Janeiro, dezembro de 1964.

7 Rodrigo Murat. Antonio Carlos Fontoura. Es­pelho da Alma. São Paulo: Imprensa Oficial, 2008, p. 44.

8 Antonio Dias. Depoimento por e-mail a Julie Belcove, junho de 2015.

9 Antonio Dias. Entrevista a Lúcia Carneiro e Ileana Pradilla. Op. cit.,p. 37

10 Paulo Sergio Duarte. Antonio Dias. Potência da Pintura. Porto Alegre: Fundação Iberê Ca­margo, 2014
11 Globo – Nani Rubim. Antonio Dias experimenta gestos e cores em sua pintura. Rio de Janeiro: Jornal O Globo , 19 de abril de 2014

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