BandeiraPinturas e desenhos
01/12/99 – 30/12/99

Em novembro de 1987, a Galeria Multiarte iniciava suas atividades, com uma exposição de Antônio Bandeira, homenageando o artista nos seus vinte anos de morte, ressaltando, sobretudo, as obras sobre papel, com o objetivo de exaltar o grande desenhista e pintor.

 

A exposição atual. de caráter retrospectivo, mostra o artista ainda no Ceará pintando paisagens, interiores e naturezas ­mortas com uma grande carga expressionista. Desta época, destacamos: Passagem do Rio Jaguaribe Fortim Aracati, Casa de Pescador, Natureza-Morta com flores, Cais com embarcações e Interior de um Bar. A qualidade da sua pintura é tão grande, que levou o crítico Ruben Navarra, a propósito de sua exposição no IAB, no Rio de Janeiro, em 1945, a errar, fazendo o seguinte comentário: … “Parece é que a pintura de temas humanos e a fatura sólida, desviando a antiga ênfase para o expressionismo social das figuras, é a última sedução do artista, assim como o sentimento Impressionista da paisagem foi a primeira. Vamos a ver agora como se resolverá a luta no clima parisiense. Uma coisa é certa; Bandeira jamais cairá nas latas de conserva do abstracionismo. Desse Impasse pelo menos ele está protegido pela exuberância do seu temperamento”.

 

Integrando um grupo de jovens artistas cearenses, dentre eles Aldemir Martins, Bandeira vem para o Rio de Janeiro, residindo num velho casarão na Rua Paissandu, onde pinta, refletindo uma solidão a que não estava habituado, Interior do atelier e o antológico Auto-retrato na garrafa, que são as obras que mostramos desse período.

 

Em abril de 1946, Bandeira parte do porto de Santos rumo à França, como bolsista do governo francês, a bordo do cargueiro Kemp T. Battle, tendo guardado entre seus pertences o diploma da Travessia do Equador – “Neptuno rei dos mares, Senhor da água salgada e da fauna Sub Aquatica, Faço saber aos que Este Certificado virem que o Neofíto Antonio Bandeira foi solenemente baptisado a bordo do PAQUETE KEMP P. BATTLE e que por virtude desse Baptismo fica autorizado a cruzar todos os meus DOMIN/OS, com ou sem linha e a enjoar QUANDO E QUANTO lhe… apetecer. Neptuno”, Inscrição do artista: Travessia do Equador – 19-IV-46, também exibido nesta exposição.

 

O artista chega à França, onde fez rápidos progressos, integrando-se logo aos meios artísticos de vanguarda, sentindo-­se logo atraído pela abstração. Neste período assistiu-se na Europa ao triunfo da arte abstrata, sobretudo em Paris, onde fixa residência e conquista o lugar de grande expoente da arte abstrata nacional.

 

Em Paris, Bandeira, juntamente com Camille Bryen (1907-1977) e Alfred Otto Wolfgang Schultz, dito Wols (1913- 1951), cria o grupo Banbryols. Nesta exposição apresentamos uma têmpera em que os três artistas são retratados por Bandeira e um painel com duas gravuras em metal de Wols e um raro desenho de Camille Bryen. Os traços de Wols mostram a influência exercida sobre Bandeira. Respondendo a um jornalista em 1950, Bandeira afirmou: “Nõo é fácil falar de influências. Devo multo a Wols, que é meu mestre e amigo. Mas é sobretudo a Paris, fermento de arte e de inteligência, que sou reconhecido”.

 

O Bandeira consagrado da arte abstrata está presente em um notável conjunto de pinturas dos anos 1950 e 1960 – Noturnos, Crepúsculo, Arrebol, Árvores, Navios, Pássaros, Neve sobre Paris, todos os títulos sugeridos poeticamente pelo artista, cabendo destacar uma importante coleção de têmperas que figuraram na Bienal de São Paulo, 1967, Sala Especial Antônio Bandeira, procedente da coleção Francisco de Assis Vilella Neto, organizador da sala especial da Bienal.

 

Esperamos, desta forma, homenagear mais uma vez este notável artista cearense e cidadão do mundo. A este respeito, comenta o crítico de arte Antônio Bento, no catálogo da exposição realizada em fevereiro de 1960 no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro: “O artista é um dos poucos pintores brasileiros que podem viver na Europa da venda dos seus trabalhos. Essa constitui uma prova irrecusável da projeção do seu nome no Velho Mundo. Bandeira é hoje uma presença viva e atuante da arte brasileira em Paris”.

Capa do catálogo da exposição

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